A Trilha para o Nirvana dos Investimentos
O “Value investing” lembra normalmente a imagem de filtros de ações
(“screening”) em busca de companhias que apresentem
baixo valor patrimonial por ação e baixo índice Preço/Lucro.
Isso é uma meia verdade, ela é muito mais um estado de espírito que um filtro.
Por
David Méier
Tradução
e adaptação de SER-
27 de Janeiro de 2005
Como você definiria o melhor tipo de ação? Uma grande companhia a um excelente preço? Aquela que só vai para cima e nunca para baixo? A forma mais prudente de se definir seria empregando o conceito de risco e retorno: baixo risco e alto retorno. “Money for nothing”, O epítome do investimento. Vamos chamá-lo de Nirvana.
Mesmo que o Nirvana seja um ótimo
lugar, poucas oportunidades de investimento se encontram lá. Se elas morassem
lá, todos nós seriamos ricos. Além da habilidade de reconhecer essas ocasiões
quando elas ocorrem, é também preciso tomar alguma atitude. Felizmente, os
membros do Motley Fool Philip Durell e sua equipe do Inside Value
estão trabalhando para identificar essas raras oportunidades quando elas
acontecem.
O continuum do investimento
Existem
outras moradias além do Nirvana, todas com suas próprias peculiaridades. Vamos
dar uma olhada nas opções usando a nossa tabela de Risco/Retorno.
|
|
Pequeno Risco |
Alto Risco |
Altos Retornos
|
Investidores que procuram Valor (Nirvana) |
Investidores que procuram Risco (Xanadú) |
Baixos Retornos
|
Investidores que evitam Riscos (Kansas) |
Investidores idiotas (Hades) |
Xanadu
é a casa daqueles que procuram risco, são personagens interessantes,
cheios de autoconfiança quase beirando a presunção. Eles morrem de rir na cara
do risco, achando que conseguirão maiores retornos por assumirem maiores
riscos. Kansas, por outro lado, é o lugar aonde moram aqueles que evitam risco,
é um local totalmente diferente. As pessoas que evitam o risco tem tanto medo
de perder dinheiro que sacrificam seus retornos para conseguir uma boa noite de
sono (Eles também tem muito receio que casas caiam do
céu). E também existe Hades, um lugar assustador e perigoso. Os moradores dessa
comunidade não tem a menor idéia que nunca serão compensados pelo risco que assumem.
Para
saber aonde você mora, vamos fazer um pequeno teste. Oferecemos a vocês duas
oportunidades de investimento. A primeira sobe 40% no primeiro ano e cai 20% no segundo. O segundo investimento sobe 20% no
primeiro ano e fica estável no segundo. Para cada cenário, esse padrão de dois
anos consecutivos se repete a cada dez anos.
Qual
deles você escolheria? Não leia mais nada até que você tenha escolhido sua
resposta (quando terminarem podem colocar a caneta em cima da carteira...).
Paraíso perdido
A
primeira vista os investidores que procuram por risco podem parecer agressivos e
que procuram por grandes retornos, especialmente quando empregam um horizonte
de longo-prazo. O “apeal” de Xanadú
é muito grande, fazendo que alguns investidores caiam em algumas armadilhas
psicológicas.
A
primeira armadilha é o que Charlie Munger, vice-chairman e guru
psicológico da Berkshire
Hathaway (NYSE:
BRKA), chama de comprometimento e consistência. Isso funciona mais
ou menos assim: Uma vez que os investidores que procuram risco optam por serem
agressivos e se comprometem a encontrar as grandes vencedoras, eles olham
apenas para ações agressivas. E quanto mais míopes vão ficando, as próprias
oscilações de resultados fazem com que eles fiquem mais cegos ainda.
O
problema aumenta ainda mais quando os investidores que procuram risco ficam
monitorando a subida e descida dos papéis da sua carteira. Eles ficam esperando
ansiosamente para que um deles decole. E exatamente no momento que a ação está
pronta para decolar, ...ela não decola. O investidor
então sofre o que Munger chama de “Síndrome de excesso
de reação a privação”, que pode ser definida como uma
reação em excesso, como se eles tivessem perdido alguma coisa. Mas, o pior
problema é quando a ação efetivamente decola, passando muito do seu valor
intrínseco. O investidor que procura por risco fica se gabando: “ Viu? Eu manjo muito desse treco!” acreditando que deu uma goleada
no mercado. Ele está completamente comprometido porquê assumiu que uma
correlação passada constitui base confiável para tomada de decisões.
O
que o investidor que procura risco não vê é que ele tomou uma decisão ruim
sobre a ótica da quantidade de risco assumido, e acaba indo parar direto em
Hades. Hades é onde se sofre uma perda permanente de capital, junto com um
monte de outras tormentas.
Que
tipo de companhias os investidores que procuram risco estão buscando? TravelZoo (NASDAQ:
TZOO) vem logo a cabeça. Eu não tenho qualquer idéia do tipo de
relação risco e retorno que existe nessa ação voadora. Sirius
(NASDAQ: SIRI) também vem a cabeça. É prudente
investir em uma companhia cujo presidente pode vendê-la por $500 milhões? Aonde está a vantagem competitiva de jogar tanto valor fora?
Atingindo o Nirvana
Para
obter um CEP no Nirvana, lembre-se da primeira regra de investimentos Nunca perca dinheiro. Outra forma de pensar sobre
isso é sempre receber mais valor do que aquilo que se paga. Você pode chamar
isso de margem de segurança ou de três dez por vinte. Mas seja lá como você chame,
entenda que investir corretamente vem de receber mais recompensas pelos riscos
assumidos.
O
Nirvana tem três benefícios. Primeiro, levando mais do que você pagou, o
retorno às médias aumentam suas chances de obter retornos maiores. Segundo, se
você cometer um erro (acredite em mim, todos nós cometemos erros), você pode
embolsar sua margem de segurança e ir para uma viagem a Kansas ao invés de
Hades. Em outras palavras, você pode não ganhar muito, mas, em compensação, não
vai sofrer perda de capital. E por fim, uma oportunidade com grandes retornos
aparece uma vez por outra no Nirvana. E você estará preparado, esperando,
pronto para agir.
Que
tipos de companhias aparecem no Nirvana de tempos em tempos? Eu penso que a Best Buy
(NYSE:
BBY) fez três aparições (1998, 2001, e 2002). E eu perdi cada uma
delas, apesar de ser um cliente fiel. Você provavelmente sabe do caso da Merck
(NYSE:
MRK) e das suas 52 semanas de baixa.
Eu
tive mais sorte com a AES (NYSE:
AES). Ela mostrou sua presença em 2002. De outubro de 2000 a metade
de 2002, nada de bom estava ocorrendo no setor de energia elétrica. A Enron
tinha colapsado. Haviam problemas com o câmbio nos
países da América do Sul aonde a AES possuía ativos de geração. A companhia
voltou a cair. Ela tinha uma porção de dívidas que foram classificadas como junk bonds devido ao medo de
quebra da empresa. Por algum motivo, o mercado deixou passar o fato dela ainda possuir
ativos bem vivos e produzindo dinheiro. Com o pessimismo rondando em todas as
partes, e meus amigos me chamando de idiota, eu consegui comprar quase 10.00
ações por $1,32, um preço que embutia uma grande
margem de segurança. A ação está sendo comercializada hoje por $13,65.
Valor: Tô dentro!
No meu ponto de vista, o processo psicológico da associação, onde duas idéias ou sensações são conectadas de alguma forma, podem fazer com que as pessoas passem desapercebidas pelo Nirvana, por duas razões. A primeira é que as companhias tendem a entrar no Nirvana em circunstâncias negativas. E ninguém quer ser associado com uma história negativa. Nós minimizamos o valor dos retornos negativos porquê é da natureza humana nos fixarmos demais nos fatores positivos. Aliás, é esse o motivo pelo qual a opção 2 ganha da opção 1, na proporção de dois para um, no teste que você fez anteriormente. Para aqueles que gostam de placares, aqui em baixo podemos ver como $10 teriam se saído, de acordo com a escolha feita:
|
Opção/Ano |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
|
Opção 1 ($10) |
14 |
11,2 |
15,7 |
12,5 |
17,6 |
14 |
19,7 |
15,7 |
22 |
17.6 |
|
Opção 2 ($10) |
12 |
12 |
14,4 |
14,4 |
17,3 |
17,3 |
20,8 |
20,8 |
25 |
25 |
A
Segunda razão é que a abordagem em valor é considerada chata. Quem quer esperar
por uma oportunidade quando não se consegue encontrar nenhuma? Acho que sou
chato porquê acredito que o “value investing” é a única forma de se morar no Nirvana. Se você
pensa que sua carteira pode se beneficiar da abordagem em valor, por quê não
tentar Inside Value
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O Contribuinte Fool David Meier possui ações
da AES e em mais nenhuma das companhia mencionadas. The
Motley Fool has a disclosure policy.